Quarta-feira, Janeiro 19, 2011

As bruxas estão à solta

Texto de autoria deste que vos escreve publicado originalmente no sempre sensacional blogue Impedimento, especializado em futebol sul-americano.

O presidente do Barcelona de Guayaquil, Alfonso Harb, encontrou, enfim, uma explicação para o fato de o clube mais popular do Equador não conquistar um título desde 1997: bruxaria. Durante uma coletiva de imprensa no dia 11 deste mês para anunciar a chegada de quatro reforços, Harb revelou aos repórteres que um jardineiro do clube encontrou enterrados no gramado do estádio Monumental Isidro Romero Carbo uma garrafa de vinho (ou de licor, segundo algumas fontes) com um líquido fétido e um boneco vestido com as cores do Barcelona (amarelo e preto) cravado de alfinetes. Nenhum de nós crê em bruxas, claro, mas que no futebol sul-americano elas existem, ah, elas existem.


Surgiram várias teorias sobre quem teria enterrado o boneco e a garrafa de vinho no gramado do estádio do Barcelona. Em uma delas, o autor da bruxaria seria o camaronês Cyrille Makanaky, que atuou no clube equatoriano entre 1994 e 1995 e depois entre 1996 e 1997, ano da última conquista dos Canarios. Seria uma vingança do camaronês por conta de salários atrasados. O mesmo motivo que teria levado, segundo outra teoria, um grupo jogadores que deixaram o clube no final da década de 1990 (no qual Makanaky não estaria incluído) a praticar a bruxaria. Por via das dúvidas, o presidente do Barcelona concedeu a entrevista coletiva segurando um quadro da Virgen Dolorosa (Nossa Senhora das Dores) e mandou fazer uma limpeza geral no estádio.


In Virgin we trust

As declaracões de Alfonso Harb causaram diversos comentários, dos sarcásticos e debochados dos torcedores riviais às sérias análises de parapscicólogos e outros entendidos das artes da feitiçaria. Já o prefeito de Guayaquil e torcedor do Barcelona, Jaime Nebot, mandou um recado ao presidente barcelonista: “A Virgem não vai fazer gols”. O treinador dos Canarios, o argentino Rubén Insúa, também não teme o poder das feitiçarias. “Respeito as crenças, mas essas coisas não afetam o rendimento da equipe.”

Não é a primeira vez, claro, que surgem histórias de bruxaria e maldições no futebol sul-americano. Um dos casos mais antigos é a “Maldição do Garabato” imposta ao América de Cali quando o clube abandonou o amadorismo em 1948. O dentista Benjamín Urrea, o Garabato, um dos fundadores do clube, opunha-se à transição para o profissionalismo e foi afastado da direção dos Diablos Rojos.

Em 1979, ainda com o América virgem em títulos nacionais, Garabato contou ao jornal El Colombiano que: “Cuando me sacaron a patadas, luego de haber servido tanto al equipo, me fui a una cantina que llamaban ‘El Hoyo’, ubicada en la carrera 3ª Con calle 17 y en medio de mujeres de vida alegre, me puse a tomar trago y procedí a coger una botella de aguardiente, la apreté y la llevé en las manos hasta la parte final de la espalda y uno a uno maldije a los jugadores y directivos del América. La maldición cayó sobre el equipo, porque nunca jamás pudo ser campeón…”

O
muy amigo Garabato, que rogou praga no seu próprio time


O assunto foi levado tão a sério que, naquele mesmo ano da entrevista, Garabato e os dirigentes do América assinaram, no gramado do estádio Pascual Guerrero, um documento no qual oficialmente foi posto um fim à maldição. Ainda em 1979, depois de 31 anos em branco na liga profissional da Colômbia, os Diablos Rojos conquistaram seu primeiro título nacional.

Para assegurar que a praga tinha mesmo ido embora, no ano seguinte o jornalista Rafael Medina e o cantor Antonio del Vilar fizeram um ritual no centro do estádio para exorcizar de vez a maldição. Deu certo, e o América conta hoje com 13 conquistas do Campeonato Colombiano. Garabato, porém, morreu em 5 de janeiro de 2008 sem conseguir ver seu time do coração ser campeão da Libertadores, depois de quatro finais perdidas (1985, 1986, 1987 e 1996). Para alguns, é a prova de que a maldição não desapareceu por completo.

A Bruxa de Chascomús

Outro caso bastante conhecido é o de Dora, a Bruxa de Chascomús, cuja praga teria impedido o Quilmes de chegar à primeira divisão argentina durante 10 anos. A história começa em 1994, quando o Quilmes brigava com o Gimnasia de Jujuy pelo acesso, e os dirigentes do Cervecero resolveram pedir uma ajuda a Dora, famosa vidente e feiticeira do município de Chascomús, na província de Buenos Aires. Ela exigiu que fosse pago como adiantamento metade do valor total de 4 mil pesos que custaria o trabalho de fazer o Quilmes ganhar e o rival perder. Com a grana em mãos, previu a derrota do Gimnasia no jogo seguinte por 3 a 0. Dito e feito: Douglas Haig 3 a 0 no Gimnasia.

A bruxa foi, então, a Quilmes cobrar a outra metade de seu pagamento. No entanto, o jogo do Quilmes com o Morón naquela rodada foi adiado, e os dirigentes do clube decidiram não pagar Dora enquanto o time não jogasse e vencesse aquela partida. A bruxa de Chascomús jurou lançar uma maldição sobre o Cervecero. Uma semana depois, o Quilmes entrou em campo para enfrentar o Morón. Vencia por 2 a 1, desperdiçou um pênalti e perdeu, em casa, por 3 a 2. Nas três rodadas finais, o Quilmes somou apenas dois pontos, e o Gimnasia garantiu o primeiro lugar e o acesso direto à elite. O Quilmes foi aos play-offs e perdeu para o Instituto de Córdoba, assim como perderia mais três play-offs de acesso até 2001, para Huracán, Los Andes e Belgrano.


O lugar que aterrorizou a hinchada cervecera durante uma década

Em 2002, com o Quilmes fazendo novamente boa campanha na segunda divisão, os mesmos dirigentes de 1994 resolveram procurar Dora para fazer o pagamento e acabar com a maldição. Mas chegaram tarde: a bruxa já havia morrido. Foram ao cemitério onde ela estava enterrada e deixaram um ramo de flores em seu túmulo. Não deu certo, e o Cervecero perdeu para o Atlético Rafaela nos play-offs. Mais tarde, descobriu-se que as flores foram depositadas no túmulo errado.

Desesperado, um torcedor do Quilmes foi até o cemitério, encontrou o túmulo correto e prometeu diante dos restos mortais da bruxa colocar o nome Dora na filha caso a maldição acabasse. A menina nasceu durante a boa campanha do Quilmes na temporada 2002-2003 e foi batizada Dora. Em julho de 2003, o Cervecero bateu o Argentinos Juniors nos play-offs e finalmente chegou à primeira divisão, depois de manter-se invencível dentro de casa durante oito meses. Quase o mesmo tempo que dura uma gestação.

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