Terça-feira, Dezembro 28, 2010

Há esperança

Quem acompanha o OCD há mais tempo deve imaginar o nojo que fiquei ao ver um time "italiano" que não tem nenhum italiano ser campeão europeu (com OITO sul-americanos!) e mundial este ano. Desprezo tanto essa aberração chamada Internazionale que não vou voltar a mencionar seu nome neste texto. Ela é mais uma mostra de que o futebol europeu é, em geral, uma farsa. Muitos times vivem às custas de sul-americanos e africanos importados. Mas há exceções. E é delas que vou falar.

Não vou nem comentar o caso do meu time europeu, o Athletic Bilbao, que só aceita jogadores nascidos no País Basco. OK, é um pouco exagerado (não sou contra haver estrangeiros no time. Defendo limites), mas acho melhor isso a ver um clube inglês disputar um jogo do Campeonato Inglês sem nenhum inglês em campo (oi, Arsenal). Isso não é futebol.

Às vezes eu acho que não há mais salvação para o futebol europeu, mas aí eu vejo o Barcelona e me encho de esperança. O time campeão europeu de 2009 disputou a final contra o Manchester United com seis espanhóis em campo, todos formados nas suas categorias de base, mais o argentino Lionel Messi, que vive na Espanha desde os 13 anos e também é cria das divisões inferiores do Barça. O campeão europeu com sete jogadores formados "em casa"... Era normal até 15 ou 20 anos atrás, hoje é motivo de muitos elogios.

O mais legal é que o clube catalão mantém a base até hoje e teve como principal contratação nesta temporada um espanhol: David Villa, que jogou muita bola na Copa. Falando em Copa, o bom desempenho da Espanha nos últimos anos, que culminou no inédito título mundial, tem muita a ver com essa base do Barcelona. Prova disso é que sete dos 14 jogadores usados pela Seleção Espanhola na final do Mundial contra a Holanda foram formados nas divisões inferiores do Barça. Diferentemente do que aconteceu com a Itália, que ganhou a Copa de 2006 e nunca fez nada que preste nem antes nem depois daquele Mundial, a Espanha ganhou também a Eurocopa e tem time pra ganhar de novo o mundo em 2014.

Para ilustrar: de 31 jogadores do Barça listados no site da Uefa como inscritos na Liga dos Campeões, 22 (70%) são espanhóis. E no último clássico, o Barcelona usou 10 espanhóis entre 14 jogadores e o Multinacional Madrid só quatro. Resultado: 5-0 pro Barça. Créu no Madrid!

Ali do ladinho da Espanha, há mais um clube que parece começar a ensaiar uma valorização dos jogadores da terra. Em um país onde 54% dos jogadores inscritos na primeira divisão são estrangeiros, é surpreendente ver o Sporting de Lisboa inscrever na Liga Europa 23 portugueses, de um total de 36 atletas listados no site da Uefa (63%). Tudo bem que entre esses "portugueses" está Liédson, baiano de Cairu, mas ele defende a seleção de Portugal, então é português. O Porto inscreveu apenas 11 portugueses na competição - há mais sul-americanos, incluindo brasileiros que nunca vi na vida, que portugueses no elenco - e o Benfica acaba de contratar seu SEXTO ARGENTINO, o atacante José Luís Fernández, ex-Racing. Mais um pouco e a Conmebol já pode convidar Porto e Benfica para jogar a Libertadores.

Outro grande clube europeu que atualmente valoriza jogadores de seu país é a Juventus, da Itália. Não sei se é porque o clube passa por crise financeira ou se é realmente uma política, mas 70% dos jogadores da Juve listados no site da Uefa como inscritos na Liga Europa são italianos (22 de um total de 31), muitos deles jovens abaixo de 23 anos - e os caras estão jogando, não estão lá só pra fazer número. Como na Itália existe aquela aberração sem italianos e dá pra contar nos dedos de uma mão os italianos titulares do Milan, é um fenômeno. A Juventus, vale lembrar, é o time que mais jogadores cedeu para a Seleção Italiana em Copas do Mundo.

A Juventus não faz uma campanha fenomenal no Italiano (4º, cinco pontos atrás do líder) e foi eliminada precocemente na Liga Europa, enfrentando Manchester City, Lech Poznan (Polônia) e Salzburgo (Áustria). Já o Sporting segue no torneio, mas faz campanha ruim no Português - está em terceiro, 13 pontos atrás do líder, o sul-americano Porto. Aí é que mora o perigo: se não tiverem resultado, imagino que logo começarão a contratar estrangeiros a rodo. Espero que não aconteça. E que Juve, Barça e Sporting continuem valorizando jogadores de seus países e sirvam de exemplo para outros clubes.

1 comentários:

Yuri disse...

E pensar que o Benfica não contratava estrangeiros até a década de 70...