Sábado, Dezembro 18, 2010

Acabem já com o "Projeto Tóquio"!

Desde a década de 1990 é a mesma coisa. Basta o time brasileiro ganhar a Libertadores que começa a elaborar um detalhado plano para a conquista do mundo, que naquela época foi chamado de "Projeto Tóquio" - depois o mundial foi para Yokohama e hoje está nos Emirados Árabes, mas a lógica continua a mesma. O plano básico inclui abdicar completamente do Campeonato Brasileiro, poupar os principais jogadores para tentar evitar lesões e estudar minuciosamente durante meses o adversário europeu. Houve plano mais arrojados, com o do Cruzeiro, que resolveu treinar em um laboratório onde simulou as condições de temperatura que encontraria no jogo contra o alemão Borussia Dortmund. E em que tudo isso ajudou? Absolutamente nada.

Vejamos primeiro o caso do São Paulo, que não aderiu ao "Projeto Tóquio" na década de 1990. Em 1992, o Tricolor jogou e ganhou (4 a 2) a primeira partida da final do Campeonato Paulista em 5 de dezembro contra o Palmeiras. Depois, embarcou pro Japão, dormiu de dia, treinou à noite, entrou em campo no dia 13 e meteu 2 a 1 no Barcelona. Voltou para o Brasil, ganhou de novo do Palmeiras (2 a 1) e conquistou o Mundial e o Paulista em uma semana. Em 1993, o Tricolor jogou às vera o Brasileirão e enfrentou o Palmeiras por uma vaga na final em 4 de dezembro. Perdeu, embarcou pro Japão, meteu 3 a 2 no Milan em 12 de dezembro e foi campeão do mundo.

Depois disso, surgiu a ideia de "Projeto Tóquio". Grêmio, Vasco, Cruzeiro e Palmeiras, passaram o segundo semestre inteiro só pensando na final do Mundial. O Grêmio poupou jogadores no Brasileiro, terminou num bisonho 15º lugar e viu Jardel sair pisado da final contra o Ajax com meia hora de jogo. O treino no freezer e a contratação de quatro enxertos (Alberto, Gonçalves, Bebeto e Donizete vieram só para a final do Mundial) não fizeram o Cruzeiro jogar melhor contra o 10º colocado do Campeonato Alemão.

O Vasco tinha o melhor time do País em 1998 mas contentou-se em ser eliminado na primeira fase do Brasileiro e ficou um mês só treinando para o Mundial. Em 1999, enquanto o lateral palmeirense Júnior tinha crises nervosas e chorava de ansiedade na concentração verde no Japão, os jogadores do Manchester United iam às compras e faziam turismo.

O Grêmio foi campeão? Não. O Cruzeiro? Não. O Vasco? Pfff... também não. E o Palmeiras? Não!

"Mas e o São Paulo e o Inter em 2005 e 2006?", pergunta o atento leitor. Sim, em 2005 o São Paulo jogou pro alto o Brasileiro (foi 11º) e ganhou o Mundial - sendo massacrado na final e só ganhando porque o Ceni jogou a melhor partida da sua vida, mas, OK, ganhou. É uma exceção. O Inter fez diferente. Foi bem até o fim no Brasileiro, terminando em segundo, e o resultado foi o mesmo: também ganhou o Mundial.

O Inter de 2006 deveria servir de exemplo para o Inter de 2010, mas desde que ganhou a Libertadores neste ano o Colorado nunca esteve de fato focado no Brasileiro. O próprio técnico Celso Roth disse depois da Libertadores, que acabou em agosto, que o campeonato nacional serviria de preparação para o Mundial. O Colorado passou o segundo semestre poupando um monte de gente e planejando como seria o duelo com o xará italiano em Abu Dhabi no dia 18 de dezembro, que não vai ocorrer.

Já nos Emirados, quando descobriu-se que o adversário da semifinal não seria o Pachuca, mas sim o Mazembe, lá veio um relatório de 40 páginas sobre cada jogador do até então desconhecido time congolês, com informações detalhadas como nome, número, posição, movimentação em campo, hábitos alimentares e preferência por Tiazinha ou Feiticeira. Chegou-se ao ponto de D'Alessandro, o cérebro do Inter, ficar dois dias sem dormir, ansioso pelo jogo contra o Mazembe. Contra o Mazembre!!!

Enquanto os outros entram em campo leves como plumas, os nossos times carregam nas costas o peso de um semestre inteiro preparando-se e pensando só naquele momento. Por isso, cada gol perdido, cada minuto com o zero no placar foi tornando-se um fardo para o Inter. O resultado disso todos sabemos.

"Mas então é só jogar bem o Brasileiro até o fim que vai ganhar o Mundial?". Claro que não existe fórmula mágica e não foi só por desdenhar o nacional que o Inter e os outros perderam ou fizeram fiasco (o Grêmio foi aos pênaltis; Vasco e Palmeiras fizeram boas partidas), mas quem toma essa atitude costuma se dar mal: de seis finais, cinco foram perdidas. Então, pra que continuar com isso?

3 comentários:

Central do Pitaco disse...

Belo post meu caro, particularmente não concordo com a extinção disso, já que as partes interessadas não criam soluções para fortalecer nosso futebol, o europeu sim, por aqui nada, é um assunto complicado.

Abs e parabéns pelo blog.

Central do Pitaco

Luís Felipe Barreiros disse...

Essa história dos atletas do Manchester é mentira declarada. Em 2005, o São Paulo quase foi rebaixado, não se esqueça disso...

Tá na hora de encarar os fatos de acordo com a época e não somente os números.

O Inter deu mole por achar que já estaria na final sem precisar jogar o seu futebol antes. Problema é deles e o Mazembe fez a parte dele e levou essa vaga.

O que tem que parar é achar que o futebol brasileiro vai sempre ganhar e é o melhor do mundo, porque NÃO É.

Abração e tem entrevista exclusiva no blog com o editor de futebol internacional do globoesporte.com,

Luís - @luisfbarreiros
porforadogramado.blogspot.com

Felipe Silva disse...

qual parte dos jogadores do Manchester é mentira? A de que eles foram às compras? Tem reportagem da Placar da época falando disso (e do choro do Júnior também). Sobre o São Paulo de 2005 (que foi 11º, 9 pontos acima do Z-4), falei no texto que foi a exceção.

O São Paulo de 2005 é mostra de que não existe fórmula. Grêmo, Vasco, Palmeiras, etc., poderiam ter sido campeões fazendo as mesmas coisas que fizeram. Mas não foram. De 6 finais disputadas por times que desprezaram o segundo semestre, 5 foram perdidas.

Então, em que ajuda ficar 4, 5 ou 6 meses planejando o Mundial como se fosse o próprio desembarque dos aliados na Normandia? Nada. Absolutamente nada. Zero. Não melhora em nada o retrospecto dos nossos times.

foi o que quis dizer no texto, mas talvez não tenha sido muito claro.

abs,

Felipe